Olhar o passado: ao contrário de o lamentar e sofrer, temos que o transformar numa fonte de alegria, por pior que ele tenha sido.

A EMBOSCADA - A PICADA

Serra Melande .
A EMBOSCADA
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Passaram muitos anos, mas a recordação daquele dia 23 de Fevereiro de 1969, esteve sempre presente, embora algo difusa em alguns pormenores, que o tempo levou consigo como recordação. Este foi um tempo estacionário, sem horizontes, vivido dia após dia, pela incerteza e a ansiedade resultante da imprevisibilidade das diversas situações em acções de guerrilha no interior da África. Num aquartelamento improvisado, onde tudo era rudimentar, onde quase tudo faltava e onde tudo teria de ser feito, melhorando sucessivamente as instalações, tendo em vista a segurança daquele reduto, para uma estadia que poderia ser prolongada e onde para além de tudo, teria de se manter uma actividade operacional regular. Recordo-me da primeira vez que vi aquele local.. Olhei as viaturas carregadas de militares, “novinhos em folha” acabados de chegar da Metrópole, deslumbrados por se sentirem envolvidos pela natureza africana. Os nossos rostos deixavam transparecer um misto de medo e receio do desconhecido. Concentrados na observação do meio envolvente, alimentando o nosso imaginário, onde tudo seria possível, desde os ataques do inimigo até às investidas das feras camufladas no meio da vegetação, ao longo da picada que nos conduziria aquele local, o Vuende. A coluna militar aproximava-se lentamente, e foi então que vislumbrei, no meio da confusão das viaturas e do pó que nos envolvia, aquela clareira rodeada de vegetação com três construções rudimentares em tijolo de cimento, chapas de zinco e duas outras de construção artesanal, dentro de um perímetro demarcado por uma vedação, com três arames farpados de fácil acesso a qualquer intruso… Naquele momento tive uma sensação de apatia total, apeteceu-me retroceder, mas nesse desalento, algo renasceu em mim que me impeliu a enfrentar e ultrapassar esta “prova de fogo” como um desafio às minhas capacidades físicas e intelectuais. Desde o momento da mobilização, sempre julguei estar preparado psicológica e operacionalmente para as mais diversas situações, não só pela formação e preparação recebida, como também pelo empenhamento que assumi ser fundamental para enfrentar as dificuldades num meio hostil e desconhecido. Muito antes de ser chamado a cumprir o serviço militar, tive consciência que iria viver esta guerra por dentro e não através dos jornais e das diversas publicações dos correspondentes das Agências Internacionais nos diversos teatros de guerra, na época - Vietnam (Dien Bien Phu) com os Franceses primeiro e depois com os U.S.A., a Argélia e no ex-Congo Belga. Foi assim, com esta “bagagem” que entrei na recruta na E.P.Cavalaria em Santarém, tendo escolhido a especialidade de atirador, e no C.I.S.M. em Tavira, a opção da mobilização para Moçambique.
Com o decorrer do tempo, aquele local - Vuende - passou a ser o centro do mundo, o lugar e a casa de todos aqueles que durante 21 meses, aguentaram a incerteza do dia seguinte, a impossibilidade de pensar o futuro... Transformaram as tristezas em alegrias no meio da amizade e camaradagem. Ali se festejavam Aniversários e Natais de todas as Famílias. Quando se saía durante alguns dias, para as mais diversas actividades operacionais, era sempre bom regressar aquele local. . Nesse domingo de Fevereiro, também acabamos por regressar de acordo com o previsto. Depois de três dias de patrulhamento no “mato”, na zona do Cauére, onde a actividade inimiga se fazia sentir em algumas acções ofensivas naquela região, através de flagelações, emboscadas e com alguma frequência na colocação de minas anti-carro, cujo efeito desmoralizador e devastador provocava feridos e mortos nas nossos fileiras. Nos dois dias anteriores, a progressão pelo mato ao longo dos trilhos, decorreu normalmente, apesar do cansaço que se fazia sentir, não só pelas distâncias já percorridas através de serras e vales, com armas e equipamento, como também pelo clima quente e muito húmido, com um aroma acre e doce que exalava da vegetação. . Vigilantes, caminhavam carregando cada um dentro si, alimentando o seu pensamento, com ausências, sempre presentes, de pais e irmãos, mulheres e filhos, amigos e namoradas. Outros trocavam as suas histórias, outros haviam que falavam de futebol e também do tempo que teimava em não passar. . Detivemos duas mulheres e uma criança, no segundo dia, que se deslocavam em sentido oposto e conforme se veio a verificar, tinham ido levar alimentação ao inimigo, estacionado algures numa base itinerante. Após uma ligeira revista superficial pelos seus haveres, encontramos duas pequenas folhas escritas. Eram portadoras de uma mensagem dirigida a outros elementos do inimigo que operavam na mesma zona de intervenção. Nesse mesmo dia, tivemos um encontro fugaz com dois indivíduos, que ao avistarem-nos se puseram em fuga, no meio duma extensão de capim muito alto, o que indiciava pertencerem ao inimigo. De imediato, se fez uma perseguição na tentativa de capturá-los, mas o terreno e a vegetação dificultaram a nossa acção, tendo sido feitos alguns disparos infrutíferos. Toda a zona onde actuava-mos, tinha sido alvo ao longo de vários meses, de diversas operações que incluíam forças terrestres, aéreas e hélio transportadas. Talvez por isso, as forças inimigas estivessem, no momento, mais reactivas? No final da tarde, início da noite, escolhemos um local para pernoitar, comer a nossa ração de combate e montar a segurança que iria ficar vigilante durante a noite. . Recordo ainda aquelas noites de isolamento total, com uma orquestra de ruídos e sonorizações de intensidades diferentes, que nos obrigavam a dormir com um olho aberto e arma encostada ao corpo. Não era fácil adormecer… e muitas vezes ficava a usufruir da escuridão da noite, com os olhos fechados durante algum tempo e ao abri-los ficar com uma sensação de vertigem, daquele céu cravado de estrelas, que se tornava ainda mais luminoso e parecia desabar sobre todos nós!
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Na manhã do terceiro dia, levantámo-nos antes de romper o Sol. Ingerimos alguns alimentos e entretanto, foram feitas algumas recomendações aos Soldados para que fossem atentos e se possível em silêncio, mantendo as distâncias; tendo sido alertados para um possível contacto com elementos da guerrilha, dadas as situações anteriormente verificadas. Iniciámos o regresso em sentido contrário, para um local, algures na picada, aonde as nossas viaturas esperavam e nos trariam de regresso ao aquartelamento. Sentia-se ao caminhar a humidade das ervas e do capim que persistentemente roçavam pelas nossas pernas, encharcando calças e botas, e que rapidamente secavam aos primeiros raios de Sol que começavam a despontar entre a vegetação. O andamento cadenciado, o peso da arma macerando os ombros, o cansaço, a transpiração a despontar nos nossos corpos à medida que avançava o tempo a caminho da emboscada, desde sempre prevista mas nunca desejada… . Ao fim de duas horas - 08h:50 - quando já próximos duma elevação relativamente baixa, aproximadamente com três metros e meio de altura no ponto mais elevado - pelo meio da qual seguia o trilho - com três metros de largura, que naquele ponto rasgava transversalmente a própria elevação. Obviamente, aquele corte de terreno terá sido feito para passagem de viaturas há muitos anos!... . Depois dos primeiros Soldados terem já atravessado, irrompeu um intenso tiroteio de armas automáticas, metralhadoras e rapidamente todos se deitaram pelo chão, ripostando de imediato e tentando abrigar-se onde fosse possível… só que o terreno não o permitia. Mais de um terço do grupo ficou entalado entre “muros”. Os restantes ficaram nos extremos, com mais possibilidades de fazerem o envolvimento e com melhor posição de fogo. Durante alguns minutos, todos os nossos sentidos foram solicitados para que fosse possível aliar o raciocínio ao instinto de sobrevivência, de baixo de fogo. Ouvia-se, juntamente com o estampido dos disparos, alguém que estava ferido e se queixava de dores, outros que tentavam dar algumas indicações e ainda uma série de variados problemas, com que cada um se teve de defrontar no limite das suas capacidades.
Ao fim de três ou talvez quatro longos minutos, tudo terminou após um disparo de bazuca que conseguimos efectuar e que levou o inimigo a retirar… De imediato se fez avaliação da situação relativamente aos três feridos e às munições disponíveis. Depois de montada a segurança no local, foram efectuados os primeiros socorros, apresentando um Soldado um ferimento de alguma gravidade. Nesta situação, tentou-se a comunicação via rádio para evacuação, mas como acontecia com alguma frequência, e tínhamos a percepção disso mesmo, por experiências anteriores, estava-mos isolados!..Ou por incapacidade do equipamento, ou simplesmente por ninguém escutar, devido ao facto de não estar dentro da hora da exploração rádio! Reiniciámos o regresso até ao local de encontro com as nossas viaturas, mais cedo que o previsto, com dois feridos amparados e outro em estado mais grave, em maca improvisada. A deslocação, ao longo destes últimos quilómetros, foi feita sob uma tensão psicológica que se reflectia nos rostos apreensivos, na precaução e no silêncio… Não havia um sorriso, uma palavra, apenas o som das passadas e das botas esmagando as folhas, ao longo do caminho. . Dado o estado dos feridos e sem possibilidades de comunicação, os três Furriéis que comandavam o pelotão, resolveram de comum acordo, que um deles teria de ir com um Soldado ao aquartelamento, distante alguns quilómetros, e trazer as viaturas para recolher os feridos e os restantes elementos do grupo.
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Após a evacuação para o Hospital Militar de Téte (norte de Moçambique), assim como a apresentação do relatório ao Capitão Comandante da Companhia, descrevendo os factos ocorridos durante esses três dias o Brigadeiro Comandante do Sector de Téte, mandou que o Furriel que comandava o pelotão, se apresentasse no Comando de Operações do nosso Batalhão, (Bat.Caç.2842). O Brigadeiro também aí se deslocou e questionou-o sobre a acção, propriamente dita, na presença do Comandante de Batalhão e do Comandante de Operações, frente á grande carta militar que cobria toda a parede - o Furriel explicou todas as situações ocorridas, indicando na carta a posição das ocorrências, ao mesmo tempo que respondia ás questões colocadas pelos seus superiores. Após as explicações, ficou surpreendido e perplexo?! ocorreram diversos casos semelhantes ao longo de dois anos e nunca teve conhecimento de qualquer reunião com o Comando... Então o porquê desta reunião excepcional? Terá sido por o Alferes, Comandante do pelotão, não estar presente na acção? Ou teria pensado o nosso Brigadeiro, depois das grandes operações efectuadas conjuntamente com as forças Rodesianas, que disponibilizavam os seus meios aéreos (helicópteros e tripulação) que o seu sector estaria “limpo” naquele distrito? . Uma noite, aproximadamente pelas 17h:30, começamos a ouvir um ruído ensurdecedor sobre o nosso aquartelamento, e então, vimos surgir por cima da copa das árvores, os holofotes de 4 helicópteros sobre as nossas cabeças, aterrando dentro do nosso perímetro. Para surpresa nossa, ficamos a saber que no dia seguinte, tínhamos pela frente uma operação que se prolongaria por alguns dias, durante os quais seríamos lançados directamente nos locais de acção! Outras operações se repetiram, mas esta provocou uma inesperada situação de terror, nas populações das aldeias em redor, devido ao barulho intenso na escuridão da noite e à forte iluminação que cegava por completo a visão dos aparelhos. As populações - homens, mulheres e crianças - pegaram nos seus parcos haveres, abandonaram as aldeias aterrorizados e vieram refugiar-se junto do aquartelamento, sem terem a noção do que presenciavam! Espantados por verem os aparelhos parados no ar, ficaram a observá-los incrédulos, durante essa noite e nos restantes dias!...
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Este relato, descreve apenas uma acção de combate, num dado momento, de um determinado dia, num determinado mês, num determinado ano! Muitas outras aconteceram, a tantos outros como nós, que ao longo dos anos, ali foram cumprir em nome de Portugal a sua missão e por lá deixaram as suas vidas.
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Narrado por:
Guilherme Fernandes
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O Comandante da coluna olha incrédulo para o que aconteceu
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A “PICADA”
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Em meados de Janeiro de 1970, a Norte de Téte, na época das chuvas, a vegetação estava muito mais verde e muito densa. As “picadas” tornavam-se mais estreitas e lamacentas, dificultando o andamento das viaturas que a todo o momento atascavam, enterrando-se pela terra dentro, paralisando durante horas a progressão lenta, condicionada pelo andamento dos homens que picavam o terreno, no intuito de detectar as indesejáveis minas que, com muita frequência eram colocadas pelo inimigo ao longo das “picadas”.
Começava assim um trabalho árduo e exaustivo para desenterrar as viaturas, o que provocava em todos uma frustração terrível, pelas horas perdidas e pelo esforço despendido a desenterrá-las, à força de pás e picaretas, num terreno betuminoso que parecia querer "sepultá-las"! As viaturas transportavam diversos artigos e equipamentos, garantiam o abastecimento, e eram fundamentais para sobrevivência das outras unidades e no desenvolvimento da actividade operacional. A importância das picadas era directamente proporcional ao perigo que representavam! Não eram o inimigo mas faziam parte dele! Eram quase sempre sinuosas, atravessando terrenos acidentados, vegetação profunda através de serras e vales. Quando encontravam um rio desafiavam o nosso imaginário pela virtualidade das suas travessias: pontes sem passagens ou passagens sem pontes?.. Na verdade, foram responsáveis por muitos acidentes, causando feridos e mortos, num confronto superior às forças IN.
Naquela noite no Bat.Caç. 2842, aquartelado em Furancungo, o comando de operações escalou a 1ª secção do 1.º grupo de combate da Companhia 2359 do Vuende – ali destacada para fins operacionais – para escoltar uma coluna de abastecimento, que teria de se encontrar ao longo do percurso com outra que viria em sentido contrário, para receber as viaturas com abastecimento, seguindo de volta para Vila Gamito. As restantes viaturas seriam integradas na coluna. Transportavam um grupo de combate, cujo oficial se encontrava muito debilitado com uma crise de paludismo. Faltavam poucos meses a todos eles, para acabar a comissão de serviço no Ultramar. Estes foram os primeiros a deslocar-se para uma nova posição, mais recuada, com a finalidade de aguardar o final da comissão e regressar à Metrópole.
Arrancamos bem cedo pela manhã... a deslocação foi morosa, ao longo da “picada” as viaturas deslizavam constantemente para as bermas devido ao terreno, que após a queda das chuvas, formava uma camada de pasta barrenta, consistente, tornando as viaturas uma presa fácil! Nas zonas do trajecto mais secas, tornava-se obrigatório picar – não se podia facilitar - o comandante de operações tinha sublinhado, no momento da saída, para a escolta fazer os possíveis por regressar com todas as viaturas?!

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As horas passavam na marcha lenta imposta pelos homens que na frente picavam o terreno. Sabíamos que naquela “picada” até Vila Gamito, era habitual as viaturas accionarem minas provocando mortos, feridos e danos materiais irreparáveis. Com o cair da tarde, escolhia-se o melhor local para dispor as viaturas em círculo, voltadas para o exterior, para no caso de ataque, se acenderem as luzes e provocar o encandeamento ao IN e melhorar a nossa visão do terreno circundante. Depois de nomeados os sentinelas, todos se recolhiam debaixo das viaturas para comer “latas de conserva” e passar mais uma noite… No dia seguinte a “picada” estava mais seca e com algum cuidado, conseguia-se controlar melhor o andamento e avançar alguns quilómetros sem picar, até que, surge um ligeiro monte de terra com um papel espetado? Aproximaram-se e verificaram ser uma mensagem deixada pelo IN a informar: -DAQUI PARA A FRENTE HÁ MINAS – não foi propriamente uma surpresa! Já acontecera noutras ocasiões e noutras “picadas” que levavam a outros destinos. Utilizavam com muita frequência a colocação de minas nas “picadas”
Além de poderem provocar mortos ou feridos, atingiam psicologicamente o moral das tropas. Inutilizando as viaturas aumentavam o esforço económico do País na manutenção da guerra. Era a forma mais expressiva das acções desenvolvidas pelo IN. Desta vez fora apenas um aviso! – Quando não colocavam as minas ficava a ameaça e a dúvida? – Muitas vezes acontecia, que ao fim de muitos quilómetros percorridos pelo cansaço e desespero, deixar de picar, seguir em frente e após algumas centenas de metros a viatura accionar um engenho explosivo? No último dia, bem cedo pela madrugada, voltou a chuva, ainda os camuflados mal tinham secado. Adivinhava-se um dia de grandes dificuldades… Aquela chuva miudinha não deixou de cair todo dia - não era normal naquelas latitudes? - As viaturas atascavam constantemente e quando rebocadas por outras, estas acabavam por atascar também! A situação chegou um ponto tal, que num troço de 70 metros, 4 das viaturas ficaram imobilizadas. Aproximava-se o final da tarde, rapidamente caíria a noite e embora as viaturas continuassem imobilizadas os esforços reforçados de trabalho e segurança continuavam… Em determinada altura, exaustos, um após outro, começaram todos a desistir por considerarem que só com ajuda suplementar seria possível sair daquela situação?.. A moral estava em baixo depois de tantas horas de trabalho, com parte da roupa molhada e com a aproximação do final da tarde tudo se tornava mais difícil! Tanto mais que, nestes últimos meses, sentia-se a proximidade do regresso e a ansiedade já se fazia sentir…
Entretanto, juntaram lenha e com aquelas condições de tempo fizeram uma grande fogueira, utilizando o combustível suplementar das viaturas, com a ilusão de poderem reabilitar as forças, aquecendo - se e secando os seus camuflados.
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As possibilidades de um ataque eram flagrantes depois de denunciada a localização… Aproveitaram para fazer a ultima refeição e a partir daí em diante, demorasse o tempo que demorasse a sair dali, não haveria mais mantimentos! Dadas as circunstâncias foi pedido o auxílio, através da rádio, de uma bulldozer para rebocar as viaturas, e rações de combate na eventualidade de ficarem retidos mais alguns dias… A resposta foi negativa, por não haver meios operacionais disponíveis. Na verdade naquelas condições era difícil se não impossível qualquer ajuda...
A noite começava a cair, a chuva parou e os trabalhos prosseguiram utilizando as luzes das viaturas que após algum tempo acusaram o desgaste ficando uma delas sem bateria! Das duas viaturas berlliet, conseguiram libertar uma e aproveitando a força de tracção combinada com as outras mais pequenas, ao fim de algum tempo resgataram a outra. Finalmente estavam em andamento, pela “picada” dentro da noite, embora com uma viatura sem luz, vagarosamente, debaixo de chuva com os camuflados molhados, a alma fria e com o pensamento imobilizado pela lama… Ninguém reagiu ao ver a escuridão da noite ser iluminada por um verylight lançado possivelmente pelo inimigo? algures longe da picada! Pensou-se numa emboscada, mas felizmente nada aconteceu? Depois de tudo que passaram, ter de enfrentar o IN, numa situação enfraquecida, seria muito grave!.. Entretanto o estado de saúde do oficial que vinha na coluna agravou-se! Embora estivesse debaixo de forte medicação e o enfermeiro sempre atento ao seu estado…
Entramos no aquartelamento, com as viaturas todas, já de madrugada. O comandante da coluna e da escolta, apresentaram-se ao oficial de dia informando do estado de saúde do paciente e das diversas situações ocorridas durante estes três longos dias, em que tivemos este confronto com a “picada”, um IN difícil de combater

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Narrado por:
Guilherme Fernandes